quarta-feira, 22 de março de 2017

Os cinco filmes que mudaram minha vida

Não sei se alguém sabe, mas estou formando para cinema e para comemorar não sei bem o que, talvez uma conquista que estou indo muito bem no tcc, já tenho 4 páginas de 15, resolvi fazer um post sobre cinco filmes que mudaram minha vida e além disso, depois de ver "Piratas da informática", e "os estágiarios" pela vigésima vez, e Mr.nobody pela 2284298420° vez, resolvi que seria a hora de mudar minha plataforma haha
vocês podem conferir aqui

Então vamos falar de filmes, galera ...

Mr.Nobody



 Meu filme favorito que vi mais de 170 vezes haha. Esse filme conta a historia de Nemo, uma pessoa que acorda no futuro e não lembra de onde vem, nem quais foram suas escolhas quando era criança e jovem. Sabe aqueles filmes que você vê de primeira e já gosta de cara? Mr.Nobody foi esse, fala sobre nossas escolhas, as consequências, futuro, passado e presente. Para melhorar ainda o filme, ele tem informações muito legais, ligadas a tempo, coincidências, anjos e claro eu amo tudo isso.



Sociedade dos poetas mortos


Se alguém nunca ouviu falar desse filme? Está na hora de desligar-se de tudo e ver.. Esse filme sempre foi uma inspiração, principalmente com duas palavrinhas que sempre amei,"carpe diem". Ele narra a vida dos estudantes de uma escola que tem como pilar a honra, excelência, tradição e disciplina. Então chega um professor que dedica a fazer eles a pensarem por si próprio, conhecendo a poesia, a paixão e vocês tem de ver esse filme.



O dia em que vi seu coração

Ok, sobre esse filme... eu vi não tem tanto tempo como os outros mas ameiiii.. Ele conseguiu realmente mexer comigo, a historia consegue ser simples e nos pegar de um jeito que não esperamos nunca. Ele narra basicamente a vida de uma família, para ser mais especifica a vida de um pai e uma filha que não são muito próximos mas também não deixam de ser distantes. É um filme que conseguiu nos pegar de jeito, acho que gosto dele porque me faz entender como as coisas são tão simples e tão boas mas as vezes não conseguimos enxergar. Vale a pena.


Medianeras

Vi esse filme por acaso e não me arrependi. Se passa em Buenos Aires e mostra como as coisas vem acontecendo, como a cidade vem crescendo e dando lugar a publicidade, a comunicação virtual, e quase nada do "sol" aparecer. Nesse filme tem como principal dois personagens, um homem e uma mulher que tem vida levam uma vida diferente mas acaba sendo semelhantes mesmo que eles não se conheçam. Esse filme conseguiu mexer muito comigo, gostei muitooo não apenas da história mas também das pequenas observações que podemos ter através deles.



Os estagiários

Filme de 2013, ele conseguiu me fazer apaixonar pela narrativa. Engraçada e emocionante conta a história de dois amigos que depois que descobrem que estão desempregados resolvem tentar um emprego como estágiarios do google. O filme mostra como os jovens e os mais velhos podem se juntar para trabalhar em equipe e mais importante no passa uma informação maravilhosa: saber aproveitar o agora mas não deixar de pensar no futuro. Vale a pena

Espero que gostem, que vejam todos, que comentem, que sejam felizes com muita pipoca e vendo os meus filmes favoritos, ou melhor, o que mudaram algo na minha maneirinha de pensar.
xoxo
até quarta que vem. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O cachorro é o grande desafio moral de nossas tempos

“Todos os animais foram dotados de recursos naturais para se defenderem e para, desde pequenos, sobreviverem, só o homem vem ao mundo frágil, e nele permanece assim”. Essa frase é a rainha de uma péssima antropologia. Essa antropologia é a base do que o filósofo alemão Peter Sloterdijk tem chamado de Internacional Miserabilista. Do que se trata?
A Internacional Miserabilista é uma expressão que parodia o nome Internacional Socialista. Neste caso, tratava-se do agrupamento de partidos comunistas no mundo (existiram basicamente quatro Internacionais, contando de Marx a Trotski). A Internacional Miserabilista seria, então, o agrupamento de partidos que trabalham sempre considerando a antropologia que toma o homem como naturalmente pobre de recursos. Nessa linha, baseia-se o grande leque de pensamento que se recusa a ver no homem sua riqueza, seu plus, sua capacidade de ascetismo e esbanjamento. Essa recusa permite desenhar o homem como uma vítima a mais no mundo. Nessa linha, o homem nasce pobre e sempre está pobre. Os recursos sempre faltam. O homem não pode ajudar o outro homem, pois o que dá irá faltar para ele mesmo. O homem pode ajudar outro, mas na base da caridade de tirar da boca de seus filhos — e assim por diante é constrói-se um choro universal.
Segundo esse tipo de pensamento, o homem é ser de defesa. Precisa se defender. Assim, teria desenvolvido a inteligência não como um dom, mas como uma necessidade, uma revanche contra a pobreza natural, contra a sua falta de proteção. O homem é o animal sem pelos. O caniço andante de Pascal. Tadinho do homem! Marx descobriu o que poderia reverter isso, o fato do homem no regime capitalista produzir mais-valia, e não percebeu que isso desmentia toda a antropologia da Internacional Miserabilista, e então sucumbiu rápido à ideia de que tal coisa não teria sido o exemplo maior do homem como não pobre e não vítima. Marx não levou a sério a palavra “plus”, quando colocou O Capital no francês. Caso tivesse feito isso, teria encostado melhor em Bataille e Nietzsche, e acertado bem mais.
Sendo o homem pobre e estando ele sempre na defensiva, inauguramos por essa antropologia uma justificativa para uma moral que faz de nós aqueles que ganham direitos de ataque a tudo que nos rodeia. Essa moral estaria baseada nessa situação própria, essencial. Mas não é bem isso. Na verdade, a moral poderia ser pensada, para ser moral, pela ideia da liberdade do homem de, sendo rico, principalmente pela sua capacidade mental desenvolvida, de não se colocar diante dos animais como se fosse pretensamente fraco. Pois não é. O homem diante dos animais se porta como algoz, e cria uma moral torta que o faz acreditar que está diante de monstros. Quando saímos na rua, notamos bem isso. As pessoas se mordem umas as outras, mas nunca perguntam se isso vai ocorrer, o que fazem é perguntar para dono do cachorro ao lado “ele morde?”. Sempre respondo: “a senhora morde, ele nunca”. Mas o homem é o fraco, e o cão, que só o ama e não sabe de nenhuma má intenção, está ali de inocente, não faz ideia que estão falando dele como um algoz. Essa inversão é permitida pela antropologia do homem fraco, a visão que dá guarida para a Internacional Miserabilista.
“Não, minha senhora, seu filho pode chutar o cão, seu filho é um crápula, não o meu cão”. Meu cão é sempre aquele que não sabe que está diante do homem, este ser que tem a moral da desculpa. Nenhum cão merece ter focinheira, pois nenhum deles é “bravo”; ele é o que o homem, o dono da moral da covardia e da traição, faz com ele. Os cachorros precisam de um regime punitivo de uma vida toda para se tornarem agressivos. Esse regime não é feito por cães.
O ataque de um homem a um cão é um falta moral gravíssima. O desleixo do homem ao cão já é também uma falta moral. Pois o cachorro espera o cuidado do homem. O cachorro viveu com o homem quando ele não era ainda cão e o homem não era homem, e nessa época foi gerado em simbiose um laço que se transformou em laço fisiológico-psíquico. Quando o homem domesticou o cão, bem mais tarde, o cão não havia esquecido tal laço, mas o homem sim. Aos poucos o homem parece perceber tal laço. Algumas pessoas, então, trazem o cães para casa, e sabem que ele faz parte da família. Os cães não são humanos, mas eles nos educaram para que chegássemos a ser os humanos que somos. Todavia, permaneceram eles próprios quase humanos, embora infantis. Querem o cuidado que tínhamos com ele, em ressonância que se tornou física, do tempo das cavernas. Por isso, se levam um chute nosso, voltam a nos agradar. Assim fazem mil vezes, em relação ao dono. Pois nos tomam como irmãos, como parentes. Há homens moralmente superiores que percebem isso. Há os que não percebem. Esses que não percebem, precisam da lei para que percebam, uma lei rígida que quebre com a hegemonia do pensamento da Internacional Miserabilista.
Nossa humanidade dará um passo quando começarmos a nos responsabilizar pelos cachorros, devolvendo amor a eles, jamais traindo a expectativa deles em relação a nós. Atacar um cachorro é uma falta moral muito mais grave que atacar um homem, pois é sempre uma emboscada, uma covardia. Não ajudá-lo é a mesma coisa.
O reconhecimento dessa expectativa do cachorro em relação a nós não é “especismo”, é o primeiro passo para olharmos para outros animais com a perspectiva ampliada, que virá um dia a ser hegemônica. Pois a antropologia da Internacional Miserabilista está errada. E há de cair.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Se tiver de ser, vai ser


O universo tem essa mania boa de querer a gente bem, e ele te trás o que você realmente precisa e quando precisa.

Não reclama se você distanciou do amigo, porque o universo vai lhe trazer outros e se não, pode apostar que seu amigo uma hora vai voltar a fazer parte de sua vida.
Não reclame se tudo nesse momento está sendo ruim, porque até nas piores situações tiramos aprendizados, ou melhor são elas as que mais ensinam.

Acredito que fazemos coisas que fazemos porque no fim tudo tem um propósito, tudo tem uma lição para nos fazer crescer espiritualmente e mentalmente.

Seja feliz, mostre o sorriso ao mundo aconteça o que acontecer porque se até a alegria acaba, imagina a tristeza? Acaba mais rápido ainda.

Pense que tudo acontece por algum motivo, você tem apenas de confiar e acreditar em si, e no universo.

Acredite ele te quer bem.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Xenofobia: a forma de agir de insetos rasteiros

Em todas as universidades que trabalhei no Brasil, sempre fui tomado como um estrangeiro. Havia o “nós”, os “da casa”, e havia o “ele”, ou seja, eu, o estranho. Nunca dei tempo ao tempo a ponto de ser integrado ao “nós”. Nem acredito que isso ocorreria. Não era uma questão de tempo, mas de aceitação incondicional ao local. Nunca fui de aceitações incondicionais, se fosse, não seria filósofo.



Fran e eu levamos o Pitoko no parque regularmente. Lá ele tem uma “turma”. Essa turma forma o “nós”, que avalia em conjunto se um novo membro pode ou não vir para dentro do clube. Um cachorro novo no ambiente é cercado, identificado como estrangeiro e, depois de algum tempo, não raro, é acolhido. Há um rito de passagem e aceitação, algo que ocorre por meio de uma rápida assembleia. Em seguida há brincadeiras conjuntas e em pouco tempo o rito se efetiva a o novo membro já passa a ser “da casa”. Infelizmente, no ambiente humano mais civilizado, essas assembleias e rituais não existem. Impera um xenofobismo institucionalizado apriorístico. Os “da casa” são os eternos donos do lugar, principalmente se o lugar é declarado de todos, público, aberto etc. Quanto mais é oficialmente de todos, menos é de todos.
Assim funcionam os bairrismos. Em alguns casos são peças de uma brincadeira que dá para aturar. Em outros, como na situação re-emergente agora com o descabido Trump, revivemos o que há de pior em nós. Trata-se do ódio arraigado, que caracteriza a direita, e que se manifesta no cotidiano ataque desse tipo de gente à ONU, à medida que se trata de uma entidade cosmopolita. Ser da direita  extremada é ser xenófobo, por definição. Algumas pessoas que se dizem de direita negam isso. Ora, se na prática negam isso, então não são de direita. Os graus  do xenofobismo – que tem facetas em tipos de nacionalismo e no racismo – variam, mas nunca a ponto de não aparecerem como marca da extrema direita. É a carteirinha de gente que gosta de fazer muro para todo lado. É um comportamento ridículo,  esse de erguer muros, principalmente em época de avanço de mídias como as que temos agora. É um comportamento pouco inteligente.
Alexandre foi aluno de Aristóteles. Foi um imperador e conquistador sábio. A cada lugar que chegava e conquistava, promovia logo o casamento de seus soldados com as moças do lugar. Fazia questão de tornar todos, de certo modo, um pouco greco-macedônios. Punha contra o xenofobismo a melhor arma, a criação de relações sanguíneas. Os romanos tentaram imitá-los, mas tiveram tanto êxito, não fizeram uma política correta de integração, e não à toa sucumbiram diante de uma religião nascida num pequena colônia. Mas essa religião, por meio de Paulo, tornou-se uma forma de cosmopolitismo ocidental. Ao menos em um bom espaço, fez diminuir o xenofobismo.
No Brasil de hoje, não raro a direita tresloucada e carcomida ataca a Rede Globo, e nisso é seguida pela esquerda que, enfim, em nosso país tem atitudes pouco diferentes (o estalinismo era xenófobo, nunca deixou de ser uma russificação!), pois essa TV apresenta traços cosmopolitas, ela põe São Paulo na conta de Nova York, ela instaura um português sem sotaque carregado do regionalismo, faz com que o Brasil se sinta Brasil se consegue entender o mundo. Isso faz a direita urrar. A extrema direita adora cultivar raças superiores, mas, no fundo, por temer a concorrência do outro, se fecha e, fazendo isso, se mostra como acreditando ser inferior. O xenofobismo pode vir com a capa de quem se acha superior, mas se revela na prática, na sua forma medrosa e violenta, como a forma de proteção de quem realmente acha que vai perder chances se o inferior entrar em seu espaço. Essa direita imagina aquele que  trata como inferior como bem superior.
Quando olhamos com ódio os “de fora”, quando criamos restrição aos “outros”, incômodo com “estrangeiros” e “estranhos”, ou quando invocamos com os que vieram “sabe-se lá da onde”, ou quando gritamos contra o nosso governo se ele quer ajudar tais pessoas ou se quer mandar dinheiro para ajuda humanitária internacional, em todos esses casos estamos trilhando o xenofobismo, e isso, em termos políticos, é por definição estar à direita. Sinceramente, é difícil qualificar uma tal posição como inteligente. Não é. É apenas uma forma de agir de insetos que vivem em coletividade, formigas rasteiras abrindo ferrões contra um grilo que pode saltar, passar por cima delas, e alcançar pontos mais belos.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo.
http://ghiraldelli.pro.br/

segunda-feira, 6 de março de 2017

Um espectro ronda a modernidade: a maioria



A ficção de um dos episódios da série Black Mirror mostra um mundo onde todos são avaliados e premiados com nota a partir de uma continua votação via rede social. Por essa avaliação, cujos critérios são os mais frívolos possíveis, uma vez que são o da moda e decido pela maioria, redistribui as oportunidades gerais da vida de uma pessoa. Um sistema como este, institucionalizado, tem sido pensado realmente pelo governo chinês. A Internet seria de livre acesso para todos, mas o governo recolheria dados pessoais de modo a premiar as pessoas, infalivelmente, por conta de suas postagens, sempre avaliadas pela votação da maioria, além de alguns comportamentos incentivados pelo próprio sistema online. Um deles seria: perde ponto que não compartilhar a verdade pela Internet. O próprio facebook tem um sistema parecido, e pretende incrementá-lo com essa premiação pela verdade. Tinha que ser, mais uma vez, a verdade!


É claro que um mundo assim é assustador. É atualíssimo, uma vez que podemos notar os linchamentos públicos na Internet – o que é bem explorado em toda a Black Mirror – associados à capacidade de governos decidirem não mais somente por revoltas dentro e fora de sua jurisdição, mas eleições de outros países. O episódio da Rússia como partícipe das eleições americanas, aproveitando-se de um tipo de formação de maioria, é alguma coisa fantástica, mas bem real. Acabou de acontecere! Mas, em termos de teoria, tudo isso não é novo. Tocqueville produziu uma teoria sobre o perigo vindo da opinião da maioria em um mundo democratizado, ou seja, um mundo equalizado.  Além disso, alguns pensadores leram Rousseau como o filósofo que inspirou a idolatria da opinião da maioria e, portanto, um dos grandes fomentadores desse perigo.
A ideia básica de Tocqueville, absorvida pelo século XX e usada em forma de teoria descritiva da modernidade, principalmente em tempos mais recentes, nada é senão uma fecunda crítica à democracia liberal. Fecunda e completamente legítima. Ela está em seu livro clássico, a Democracia na América, produzido entre 1831 e 1835. O livro é fruto da viagem de Tocqueville aos Estados Unidos, com o objetivo inicial de investigar o sistema prisional americano.
A teoria contida no livro diz respeito às vicissitudes da igualdade democrática e seu encaminhamento para o individualismo. Resumindo ao máximo: os americanos não possuem uma filosofia em especulação, mas nem precisam de uma, pois na prática fazem o que a filosofia, em especial a moderna, disse que era o correto. Ou seja, são cartesianos. Querem julgar tudo pela própria razão, de modo individual, e assim fazem. Isso por uma razão simples: não sentem as hierarquias que os europeus sentem, e então não tem que ouvir nenhuma voz mais sábia que as suas próprias para enfrentar seus problemas cotidianos. Cada um, na sua individualidade, se acha suficiente. Todavia, exatamente por não verem ninguém como sabendo mais, tendem a acreditar que a opinião pública da maioria, exatamente por ser o que expressa todos os que sabem iguais a cada um, é alguma coisa inequívoca. Assim, se cada indivíduo age com sujeito cartesiano, o coletivo deve agir também como um super sujeito cartesiano. Desse modo, a igualdade e a liberdade individual servem para o fomento do seu contrário, uma espécie de tirania da maioria, ou melhor, uma tirania da opinião da maioria.
Uma crítica semelhante, levada a cabo, entre outros, pelo filósofo alemão da atualidade Peter Sloterdijk, é dirigida a Rousseau. Sloterdijk desenvolve isso em vários escritos, principalmente num belo e interessante opúsculo chamado Estresse e liberdade (2011). Neste, ele mostra que Rousseau se recolheu na canoa no Lago Biel para ter a experiência da completa solidão, do isolamento, para deixar-se ao sabor não de pensamentos, mas de devaneios. Assim, Rousseau criou uma situação cartesiana às avessas: não penso, logo existo. Percebeu sua existência pelo devaneio, pela vivência sem conteúdo conceitual ou sentimental, pelo completo não pensar ao ficar entregue ao vazio mental de uma tarde no largo Biel. Rousseau teve a experiência da individualidade que o levou, depois, a pensar no conceito de ‘vontade geral’, ou seja, o que se tornaria uma diretriz comum para uma povo individualizado mas sob o beneplácito da vida em um estado democrático, onde ninguém seria mais que o outro. Rawls chegou a pensar essa ‘vontade geral” como uma espécie de campo transcendental, ou seja, uma vontade que se manifestaria como um ideal racional para união para indivíduos livres e iguais, que sem isso ficariam isolados, mas que justamente por isso, seriam capazes de se preencherem na sua individualidade. Assim, cada indivíduo sairia da condição de livre vivida pelo próprio Rousseau no lago Biel, para exercer uma vontade livre, mas não díspar, nas atividades necessárias da vida pública. Não foram poucos que viram no Terror francês e, depois, na Rússia de Lênin e Stalin, figuras se dizerem, com autorização do povo, de cumpridores dessa ‘vontade geral’.
A opinião da maioria em democracia vista por Tocqueville e a ‘vontade geral’ no estado democrático de Rousseau, visto por vários de seus leitores, em especial por Sloterdijk, são bem o que conhecemos como o que temos para não acharmos a democracia liberal igualitária um paraíso. Só um completo tolo nos proibiria de criticá-la! Todavia, a semelhança entre a análise de tocquevilianos e a de Sloterdijk, quanto à modernidade, se encerra neste ponto. Pois, para tocquevilianos o que enxergam diz respeito a uma narrativa que descreve realisticamente a democracia liberal. Todas as potencialidades e perigos estão ali. Mas, para Sloterdijk, o que Rousseau fala é apenas um dos componentes ideológicos da narrativa moderna sobre ela mesma. Para Sloterdijk, o liberalismo fala de indivíduos individualizados ao modo liberal, e não ao modo de uma compreensão mais ampla, antropológica, capaz de invocar saberes pré-liberais ou não liberais.
Sloterdijk vê o homem como reflexivo uma vez que é desde sempre uma bi-unidade, uma subjetividade que é uma díade, e que está apto a se manter em conversação por conhecer o que é ficar sozinho, mas jamais o que é a solidão. A maneira que Sloterdijk vê o homem não é a maneira individualista e substancialista que une Aristóteles a Descartes, e que se estende a Rousseau,
mas é a de uma “ontologia do dois”. Não há homem se não há desde sempre aquilo que Hannah Arendt vê ao falar de Sócrates: o dois em um. Não somos reflexivos por um dote de um indivíduo que pensa de modo inato, nem somos assim por conta do advento miraculoso da linguagem capaz de gerar a intersubjetividade, mas por sermos, desde o útero, os que são formados em parceria com o elemento placentário, com a mãe, depois com as vozes, com o pai etc. Somos sempre os que refazem o ambiente imunizado inicial, vivido em situação sinestésica. Somos os que vão para fora na busca sempre de refazer o dentro.
O indivíduo de Sloterdijk é, então, diferente do indivíduo do individualismo descrito por Tocqueville, e completamente diferente do indivíduo visto pela análise de Rousseau a respeito de si próprio. Ou seja, o indivíduo de Sloterdijk não é o indivíduo participante do clube liberal, aquele clube de sujeitos isolados que, por contrato, ganham uma carteirinha para participarem das benesses do clube, ou seja, a intersubjetividade. Sloterdijk não diz que a América de Tocquevile não existe ou que a ‘vontade geral’ de Rousseau não é uma proposta factível. O que ele diz é que essas narrativas deveriam ser tomadas com o que são, narrativas a mais, e não um retrato fidelíssimo e infalível do homem. Uma narrativa como a dele próprio, então, explicaria as possibilidades da maioria não ser inexoravelmente o destino do mundo – isso não estaria inscrito no próprio projeto humano.
Parece-me que Sloterdijk põe mais vida na situação moderna do que esses outros autores que trabalham na base da crítica de Rousseau e na adesão aos alertas de Tocquevile. A exposição de Sloterdijk abre portas que fazem com que não acreditemos que a opinião da maioria tenha mais poder do que o imenso poder que já lhe damos, inclusive o poder de nos apavorar. Há uma cunha de esperança na narrativa de Sloterdijk que o faz não-realista. Ora, sabemos bem que os realistas tendem, não raro, a apenas compactuar com o banditismo à medida que pronunciam um fatal “o mundo é assim mesmo”.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo
http://ghiraldelli.pro.br

sexta-feira, 3 de março de 2017

Enquanto alguns chegam, outros partem. Na vida, somos passageiros de nós mesmos

Eu era criança quando fiz minha primeira viagem de trem. Nunca me esqueci do vagão em que fiquei com minha família. Sentada à janela, ia descobrindo como era grande (e diferente!) a vida que passava de cidade em cidade, pelas plantações de cana-de-açúcar e pelo gado nos pastos. Mesmo atenta às cenas a que assistia, também notava o reflexo do meu rosto no vidro que me separava do mundo lá fora.
Viajávamos ao encontro de uma família de amigos que estava comemorando o nascimento de mais um filho. Porém aquele momento, que deveria ser apenas de festa e alegria, também era temperado pela lamentação da morte recente do pai da criança recém-nascida. À medida que chegava o nosso destino, uma mistura de felicidade (eu conheceria o bebê) e medo (também conheceria a morte) tomou conta de mim.
Outro dia, revivi a “viagem de trem”: no mesmo dia em que faleceu a mãe de uma grande amiga, nasceu o filho de uma outra amiga nossa. Dor e euforia dançavam novamente por entre as pessoas perto de mim. Olhei-me no reflexo do vidro da janela do vagão que seguia independente de minhas vontades; e eu estava novamente envolta por pensamentos inquietos e antagônicos.
Ferreira Gullar escreveu um poema para dar voz à composição de Heitor Villa-Lobos (uma música na qual os instrumentos da orquestra imitam o movimento da locomotiva). Ouço a canção em minha mente e recito os versos que atravessam minhas lembranças: “Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar (…), lá vai o trem sem destino, pro dia novo encontrar…”.
Inspirada pelo poeta, percorro os trilhos da minha vida. Apoio a cabeça na janela da minha alma e fico observando tudo que se passa (e o que passou) lá fora. A cada cena que vejo (e revejo), deixo desgostos, desamores e remorsos para trás. Lembro-me de que foi nos períodos mais difíceis da minha vida que aprendi a deixar o que já foi para seguir em frente.
Às vezes essa viagem é calma. Mas tem dias em que a gente descarrilha: perdemos a hora ou a chance, lamentamos por quem se foi e sofremos pelo que não tivemos. Dá vontade de parar o tempo e chorar com calma. Bem devagar. Suspirando. Até a dor passar. Também queremos odiar sem culpa e gritar ao mundo, para depois morrer na miséria das horas que nos consomem.
Porém, a despeito dos nossos piores pesadelos, os trilhos continuam à nossa frente. Precisamos retornar à locomotiva. Precisamos seguir viagem, mesmo com a paisagem incerta, e mesmo com as mágoas que levamos na bagagem. Por isso, prefiro continuar acreditando na frase de Martin Buber: “Todas as jornadas têm destinos secretos que o viajante desconhece”.
Assim, sejamos passageiros que carregam mais do que partidas e chegadas, e mais do que o início e a morte; mas levemos também a vida rodando em esperança e futuro. Então, os olhos refletidos no vidro da janela irão sorrir para nós: estamos aproveitando a viagem!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Fique com quem te leve pra frente

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Os oito demônios ricos de hoje

A riqueza nunca foi um pecado. Ela sempre foi um contraponto. Os filósofos gregos não se indispuseram contra ela, apenas diziam que obtê-la não poderia ser um único objetivo na vida (Sócrates) ou uma fonte de preocupação (Epicuro). Jesus nunca falou diretamente contra os ricos, apenas mostrou que a riqueza poderia se tornar alguma coisa maior que o homem, maior que seus desejos explícitos, e então virar um buraco na agulha difícil de ultrapassar. As coisas ainda seguiram a contento para os ricos quando o Renascimento deu seus passos.
Um conto popular do Renascimento foi o Fortunatus. Mais ou menos no início de 1500 esse conto fez o maior sucesso. O enredo era em torno do garoto que tinha ganho uma bolsa, de uma fada da floresta, com moedas que eram magicamente repostas a cada gasto total, e que por conta dessa fortuna, ou seja, dessa sorte, podia correr o mundo de aventura em aventura. A palavra fortuna com a conotação de sorte e prosperidade carregou-se da semântica atual, ou seja, tornou-se sinônima de “montante de dinheiro”. Só havia positividade nisso. Além do mais, o mecenato era a prática dos ricos, até mesmo dos mesquinhos, e com isso o mundo ganhou aspectos melhores. A Igreja deveria cuidar dos pobres, os ricos optaram por cuidar das artes e até mesmo da Igreja, e alguns reis, que haviam se reabilitado financeiramente, passaram a financiar as aventuras das Grandes Navegações. Mas, depois de trezentos anos nisso, as coisas mudaram muito.
Quando os habitantes dos burgos começaram a se dividir entre os burgueses e os que chegavam depois, só para trabalhar para estes, as coisas começaram a mudar de figura. O contraste entre o pobre e o rico, agora num espaço de convivência mais ou menos próximo e regido por leis cada vez mais iguais para ambos, ampliou-se na proporção exata da extensão das condições de igualdade. Foi assim que as coisas se abriram para a revolução semântica que Marx consagrou: os burgueses viraram “os ricos”. O contraste deu a má fama. Marx selou tal má fama à medida que fez uma segunda revolução semântica ao introduzir a palavra exploração não mais em relação às coisas naturais, mas em relação ao trabalho humano. O século XIX terminou desfraldando a bandeira de Tolstoi: “Os ricos farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas”.
Nos dias de hoje a palavra burguesia voltou naturalmente a se colocar apenas como termo sociológico. Aliás, nesse caso, com um adendo instrutivo: vale dizer “burguesia” quando nos referimos ao século XIX. Quando o escritor fala em burguesia e proletariado para o século XX, já é obrigado a aspar, caso contrário fica como sendo um escritor ainda marxista ou, se quiserem, marxista vulgar. Mas a conotação de rico como negativa perdura. E isso não só por conta da vitória semântica de Marx e dos socialistas em geral, mas agora sempre no contraste entre os ricos e os muito pobres.
Também nesse caso é a sociedade de mercado e democracia que devem ser responsabilizados por tal pensamento. Pois é com a sociedade de mercado que aparece a ideia, explicada pelos economistas de então, de fazer do trabalho abstrato, em termos de horas, o elemento de mensuração da mercadoria. Assim, a balança é o elemento que adentra o cérebro humano. Tudo é visto sob a regra do equivalente,ou seja, de algo que pode e deve se comportar como o mercado pede. Generaliza-se a ideia de que há de se pesar as coisas, criar equivalentes. A ideia de justiça como reposição é absorvida pela ideia de equivalência de tal forma que se alguma coisa é “muito” em relação a algo que é “pouco”, o sentimento de injustiça se acentua e se agrava.
É nesse mundo que os muito ricos, mesmo que estejam empregando seu dinheiro em favor de muitos outros e da sociedade como um todo, aparecem como vilões. Uns até dizem que não são os ricos os vilões, mas o tal “sistema”. Ora, mas dizer “a culpa é do capitalismo” é nada dizer, é apenas repetir jargões da Idade Média, como aqueles que diziam “o mal vem demônio”. Assim, sobra olhar os ricos. Mas, infelizmente, muitos observadores se perdem nisso, pois não analisam os detalhes do que se faz, e sim o simples fato dos ricos serem ricos, ou seja, o de estarem fazendo a balança do dinheiro pesar só para um lado. A falta de equivalência em peso, por si só, forma uma imagem que é associada à injustiça. É essa visão que faz as pessoas torcerem no nariz para a notícia “oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo”. A semântica aí já aparece com a conotação não mais do Renascimento, mas dos tempos modernos, e o leitor não se pergunta sobre os projetos dos mais ricos para o mundo, ele já os toma como sendo pessoas que não possuem nenhum projeto a não ser o de ganância pessoal. Zuckerberg ou Bill Gates seriam meros sovinas. Desaparece o julgamento intelectual e aparece o puro preconceito.
Aliás, desaparece também a própria investigação da frase da notícia. Pois a frase sobre os “oito ricos” mostra que há muitas pessoas, não existentes no mundo pré-moderno, que não são “os mais pobres” – todos sabemos que criamos uma classe média enorme no Ocidente, que se desfez do trabalho de esforço físico, e que vive sob o conforto da eletricidade e outras forças motrizes que fazem a jornada de trabalho diminuir e a folga aparecer como uma constante. Aliás, todos sabemos que isso também é uma realidade senão dos mais pobres, ao menos dos chamados pobres.
É incrível que tenhamos caído nessa armadilha semântica criada por nós, e isso em tão pouco tempo. É incrível que, em nome de desfazer ideologia, tenhamos criado um ideário ainda mais ideológico. Acabamos colocando um Bill Gates no saco aberto por Trump. Assim, o mecenato é engolido pela farra da arrogância e incultura, um erro crasso. Esquecemos completamente do grande patrocinador Andrew Carnegie, que dizia “quem morre ricos envergonha a sua vida”, uma frase claramente observada por Zuckerberg e outros grandes milionários. Que se repare como que a atividade de George Soros é amaldiçoada pela direita política.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo.
http://ghiraldelli.pro.br/

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os cérebros estão ocos. A empatia foi pro saco. A tolerância virou algo descartável

No tutorial de hoje vamos ensinar a construir relações com baixo limiar de tolerância. Você vai precisar de cola, barbante, cartolina, caneta e tesoura sem ponta. Recorte a cartolina em formato retangular e cole o barbante formando um cordão. Escreva em letras garrafais “RESPEITO É BOM E EU GOSTO”. Coloque no pescoço e use na rua, em casa e no trabalho focando exclusivamente no que você acredita merecer e ignorando quem à sua volta anseia pelo mesmo. Simples e prático: está pronto o mecanismo que tem nos tornado cada vez mais alheios ao outro, submersos em egocentrismo mimado.
Escutamos desde cedo que o nosso direito termina quando começa o do outro. Sempre achei essa máxima um tanto furada. Criança, pensava como havia sido relapsa a pessoa que elaborou tal teoria, sem ao menos nos deixar mapeadas as delimitações dessa suposta fronteira. Eu, por exemplo, achava que ao xingar meu irmão ele tinha o direito de replicar a injúria na mesma moeda. Ele, por sua vez, sentia-se credenciado a reagir com pontapés aos meus desaforos. “É desproporcional” eu gritava, pedindo socorro à minha mãe, que punia ambos nos tirando a TV. Meu irmão acreditava ter sido injustiçado, afinal quem começou merecia o pior castigo. Eu não me conformava com a equidade de tratamento dispensada a xingamentos e chutes. Minha mãe não tinha dúvidas de que estava certa. Três cabeças, três sentenças, e eu ainda procurando a demarcação desse limite que estipula até onde cada um pode ir.
Em uma sala pequena, entre pessoas da mesma família, com criação e valores semelhantes, eu já percebia a complexidade inerente ao convívio. Acomodar de maneira minimamente respeitosa nossas crenças, comportamentos e ideologias em uma sociedade multifacetada, portanto, não é tarefa das mais fáceis. Nós caminhamos desejando ser bons, mas tropeçamos em nossos próprios preconceitos. Falhamos no propósito de ser mais complacentes com aquilo que é estranho ao nosso mundo, mergulhados em ideais rígidos do que é certo ou errado. De repente nos vemos no meio de um fogo cruzado, munidos do desejo incontrolável de provar que temos razão, feridos pela fúria dos que tentam o mesmo do lado oposto.
A falta de maleabilidade com causas que destoam das nossas tem edificado muros entre nós — simbolicamente tão perigosos quanto aquele que criticamos do alto de nossa poltrona enquanto assistimos ao jornal. Alimentamos um misto de má vontade com ego inflado, de prepotência com apreço pelo confronto, de indisposição em ouvir com necessidade de falar e chegamos ao inevitável desfecho: culturas, vontades e histórias atropeladas pelo trator da intransigência. Porque olhar os outros com olhos menos severos dá trabalho. E, tragicamente, tripudiar muitas vezes dá prazer.
Eu não sei mensurar se machuca mais não ter a quimioterapia tratada com dignidade por conta de um turbante ou ver um símbolo de luta contra a subjugação do seu povo ser banalizado. Não sei dimensionar dor, categorizar discussões como quem coloca etiqueta em potes de plástico. Não sei se grafite é arte, se comprar cachorro é monstruosidade, se fui mais lesada pela direita ou pela esquerda. Se não há consenso sequer sobre se o vestido é azul e preto ou branco e dourado, como esperar um olhar linear sobre todas as subjetividades que nos cercam? Mas é preciso um pouco de disponibilidade em compreender as pessoas e toda a carga de vida que as acompanha. Enquanto insistirmos em pisotear aqueles que fogem dos padrões que sacramentamos como corretos, perdemos humanidade. A empatia respira por aparelhos. Mas é possível que se recupere.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Faça a festa

Faça a festa
Faça a festa por você, reúna os amigos e saia pela rua tocando a bateria ou tocando uma guitarra
saia para as ruas e vai pulando
pule tanto até a perna doer e quando isso acontecer, se der vontade pule descalço com o pé na areia ou no passeio

faça a festa
faça a festa porque a vida é uma coisa pequena e sem volta
faça a festa pra viver o momento
pra sair com a cara pintada no meio da rua ou com a mascara do Batman
vai la e faça a vida

faça o momento,
faça a vida
faça a alegria do momento
faça a festa porque você merece, não faça pelos outros e sim por si mesmo
faça a festa
mas faça e faça agora

Faça sentimentos,
faça melancolia, esperança, fantasia, faça vida
faça diversão e alegria
faça festa
mas faça todos os dias